sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Pablito querido - parte 1


Como estás? Estás confortável na barriga da mamacita? Ela come muito, tadinha, para que não te falte nada. Falta-te alguma vitamina ou mineral específico? É só dizer que nós resolvemos em um par de horas. E a manhê nem precisa se mexer! Bom, vai ter que mastigar pelo menos, né? Aqui fora a coisa não tá fácil, mas podes ter a certeza que já tem um montão gente com os braços aberto, ansiosos pela tua chegada. Eu, no teu lugar pensava um pouco no assunto. O pessoal aqui fora, fora a família próxima, não bate muito bem da bola. Digo fora a tua família próxima, mas a verdade é que mesmo essa não joga com o baralho todo :)

Mas, em nosso favor, deixa-me te falar um pouco do mundo que te espera:

E vou começar pelos teus pais. Tens uma mãe e um pai que são nossos bebes grandes (como poderás ver neste blog, daqui a uns anos). Eles são fantásticos, completamente aluados, irresponsáveis na dose certa, com o coração cheio de amor e carinho, olhares risonhos que te darão todo o conforto e segurança do mundo, bom humor e controvérsias (é preciso sempre um pouco). Nos teus momentos de dúvida, não existirão melhores pessoas no mundo para procurares abrigo e conselho. Eles darão a vida por ti. Simples assim. Literalmente.

A primeira vez que vi o teu pai, ele era um pouquinho mais velho do que tu, babava muito, tinha uma cara de chinês que nos perguntávamos se não tinham trocado os berços naquela maternidade organizada de Bissau, tinha um sorriso que desarmava qualquer um – depois perguntas para a tua mãe – era gorduchinho e queria e não conseguia se sentar direito por causa do peso da cabeça dele. Aliás, foi o peso da cabeça dele que fez com que este teu tio quase o “quebrou”. Uma vez estávamos a tentar tirar umas fotos e eu tentei pegá-lo no colo. Calculei mal a repartição de massas e a cabeça dele foi direto para o chão, levando o resto do corpo junto. Foi uma bela queda que, tenho a certeza, deixou seqüelas. O cérebro dele ficou um pouco frouxo dentro do crânio. Por isso é que ele hoje não consegue ver maldade nenhuma nas pessoas. É mais um defeito sistêmico do que um traço de caráter. E crescemos juntos durante muitos anos mas, para grande desespero dele, nunca deixou de ser o nosso bebê. Como tu serás o dele :) Ele cresceu para ser essa pessoa maravilhosa que é hoje, linda por dentro e por fora, generosíssima em todos os sentidos, simultaneamente tímida e extrovertida – não me lembro qual compensa qual, mas tenho a certeza que há de haver uma explicação cabeça para isso – jorra sentido de humor, inteligente à bessa (não quer dizer esperto, ok? É inteligente MESMO), extremamente criativo, exala carinho – embora eu ache que só tu e a tua mãe consigam quebrar o gelo inicial. Ele tem uma visão do mundo meio cínica, mas penso que é só para esconder o fato que ele acredita num futuro melhor – a tua vinda em si é uma das formas dele contribuir para esses dias mais pacíficos. Uma vez eu lhe disse que ele era a pessoa que eu gostaria de ser, e é verdade. Sabes que o aniversário dele coincide com a queda do muro de Berlim? Depois eu te explico o que foi o dito muro. Ah, outra coisa, ele também é preguiçoso (olha quem fala), tem imensos problemas com horários e gosta de White Stripes. Só para provar que ninguém é perfeito.

Por hoje fico por aqui. Eu sei que disse que ia falar dos teus pais. Por comodidade comecei pelo teu pai, meu irmãozinho. Mas não esqueci a tua mamacita, podes ficar descansado. Espero te dar mais notícias na próxima semana. Já estamos com saudades tuas!

Beijo

Teu tio que muito te ama!

3 comentários:

  1. David querido, tio do Pablito e irmão do Pedro!!

    Quanta sensilibidade você nos mostrou com esta publicação. Sensível em trazer para cá a alegria de uma relação fraternal forte, com amorosidade, de admiração entre irmãos, nem sempre presente nas experiências pessoais. Você me fêz pensar que este - desenvolver uma boa relação com os irmãos - é um aspecto fundamental para que possamos seguir em frente na vida, atuando com transferências positivas para as outras pessoas que vão entrando na nossa vida (infantil, adolescência, adulto jovem, maduro e velho). Reconheço na relação de vocês - irmãos Borges (David, Djamila e Pedro) - este vínculo estabelecido e necessário para acolher todos os desafios-problemas que surgem durante nosso processo vital. Maravilhoso poder contar com os irmãos (de sangue, inicialmente) pois só assim a vida fica um pouco mais fácil, pois como vocë já lembrou ao nosso Pablito que "viver é muito perigoso" (acho que é Guimarães Rosa).. Um grande bj de sua admiradora, beth

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  2. David, que lindo! Meus olhos ficaram cheios de lágrimas...
    Realmente ter irmãos é a coisa mais bacana. Minha vida seria tão diferente sem a Nati. Ela me ensinou a ser brigona. Pois é, não foi a mamãe foi a nati. Mas ao mesmo tempo ela me defendia de tudo e de todos e assim desenvolvemos essa cumplicidade tão insuportável aos Pedros... fazer o quê, né nati?
    Beijinhos.

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  3. estou tão emocionada...
    com os olhos cheios d'água. muito lindo ler sua percepção do Pedro e de mim. lembro-me sempre da forma aconchegante e sincera com a qual me acolheste desde o rpimeiro momento que trocamos ohares na escada do apê de Lisboa... das palavras lindas que sempre sabe o momento certo de dizê-las quando por exemplo decidimos por casar e mesmo nos momentos em que brigamos (eu e seu irmão e a força que vc me deu) e, mais recentemente, quando anunciamos nossa alegria com a chegada do Pablo: dizia-me que não imaginava outra mulher para ser mãe do seu sobrinh@.. enfim, amo essa sua doçura e a forma como sempre acaba por encorajarnos! beijos da mamacita para o tiocito

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